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Atualizado em domingo, 1 de abril de 2012 - 16h14

Quando mentir se torna uma doença

Pesquisador da Unifesp explica as principais causas e consequências deste distúrbio comportamental
A mitomania é uma doença em que o paciente simplesmente não consegue parar de mentir / Divulgação / Shutterstock A mitomania é uma doença em que o paciente simplesmente não consegue parar de mentir Divulgação / Shutterstock

 

O dia 1º de abril é lembrado em todo o mundo como o Dia Internacional da Mentira, quando diversas pequenas mentiras são contadas por pessoas em todo o planeta para pregar peças nos amigos. Apesar das características cômicas do dia, a mentira nem sempre pode ser classificada como uma brincadeira saudável. Em alguns casos, quando há excessos no ato de mentir, ela pode ser diagnosticada como mitomania, também conhecida como a doença do mentiroso. 

 

Trata-se de uma necessidade incontrolável do ser humano de mentir. A doença, que deve ser tratada por um psicólogo ou psiquiatra antes que a vida do paciente entre em um completo caos, é cada vez mais comum por conta da disseminação do ato de mentir na sociedade, segundo apontam especialistas.

 

Ricardo Monezi, pesquisador do Instituto de Medicina Comportamental da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), afirma que “não é da natureza do ser humano mentir. Tanto é que a mentira não incomoda apenas o cérebro, mas o organismo humano como um todo. Quando estudamos fisiologia do comportamento sempre observamos o homem constituído sobre três dimensões: biológica, psicológica e social”.

 

Reflexos

 

“A mentira, o ato de trabalhar com ações não reais, nasce do psicológico. Ao se espalhar, vemos que o corpo também sofre reflexos. O ser humano não foi programado para mentir. Todas as vezes que você mente, no caso de uma pessoa normal, algumas áreas dele ficam te lembrando da não veracidade daquela informação”, completa o especialista. 

 

Para o pesquisador, diversos indícios podem ser vistos na pessoa no momento em que ela mente. O ato de mentir chega a causar taquicardia, alteração na pressão arterial e na frequência respiratória, além de modificações em alguns componentes do suor. “Há ainda liberação de hormônios ligados ao stress, como cortisona e adrenalina. É possível também ver ainda pela musculatura da face”, afirma ainda. 

 

Este tipo de distúrbio comportamental pode afetar não só a saúde do paciente, mas também sua vida social.  De acordo com o Monezi, “a pessoa constrói uma série de símbolos e histórias e vive dentro delas, dentro dessa realidade paralela, diferente daquela verdadeira, onde todos estamos. Inevitavelmente o portador desta doença começará a ser excluído dos seus círculos sociais”. 

 

Causas da mitomania

 

A doença do mentiroso pode ter início após experiências traumáticas ao longo da vida do paciente, ou até a partir do convício social com indivíduos que possuem o hábito de mentir. Além destes fatores, as disfunções neuroquímicas, também são apontados como pontos de desencadeamento do transtorno. 

 

“As pessoas muitas vezes entram nestes quadros após sofrer um grande estresse pós-traumático. Acaba se tornando uma válvula de escape da dor que ele sente por não viver de acordo com os padrões estabelecidos pela sociedade. Temos também quadros de pessoas ansiosas que começam a mentir para disfarçar a ansiedade. O mitômano não nasceu doente. Muitas vezes ele foi produto de um meio”, continua. 

 

Quando a mentira pode ser diagnosticada como doença?

 

Segundo Monezi, a mitomania pode ser confirmada a partir do momento em que a pessoa vive menos a realidade e as verdades da vida, passando a se concentrar somente em suas mentiras. 

 

“Quando a pessoa deixa de ter o controle da sua própria verdade isso se torna uma doença. Ela se isola do convívio domiciliar, não quer trabalhar por conta das mentiras. A pessoa passa a ter uma compulsão, uma coisa descontrolada”, diz o pesquisador da Unifesp.

 

 

Pessoas que sofrem de mitomania devem procurar ajuda de especialistas para realizar o tratamento adequado - Divulgação / Shutterstock

 

 

Cura

 

Além do tratamento psicológico e psiquiátrico tido como um ponto em comum em casos de mitomania, Ricardo Monezi destaca a importância do apoio familiar ao longo deste processo. De acordo com o pesquisador, as pessoas próximas ao paciente não devem se afastar, e sim auxiliar no resgate da verdade na sua vida.

 

“A família tem um papel fundamental. Ela tem que acompanhar o paciente e conversar com ele, mostrando que a realidade, por mais dura que seja, deve ser vivida. Muitas vezes o mitômano entra na doença porque tem medo de uma realidade que pode ser muito traumática”, afirma.

 

“Diálogo e convivência são importantíssimos. A família tem que estimular confiança no doente. Mostrar que ao mentir ele não traz prejuízo apenas para o meio psicológico dele, mas também para o seu corpo. A mentira produz estresse para o organismo. Deve-se mostrar que ela pode acabar se isolando da sociedade por tanto mentir. As pessoas perdem a confiança nela por conta de tantas inverdades”, acrescenta. 

 

Uma vida de mentiras

 

O administrador de empresas C.M., diagnosticado com a doença do mentiroso aos 36 anos de idade, viveu na pele a sensação de não conseguir parar de mentir e ver, um a um, seus amigos se afastarem. 

 

“Eu simplesmente não conseguia controlar. Não consigo mais contar quantos amigos já perdi por contar mentiras o tempo todo. É como se fosse um vício, o meu corpo pedia por isso”, explicou C.M, hoje com 43 anos e completamente curado.

 

“Quando trabalhava no controle de finanças de uma empresa, cheguei a desviar dinheiro do meu chefe para a minha própria conta e negava isso constantemente. Apontava falhas no sistema para me livrar da culpa, e eu acreditava nelas. Pouco depois descobriram o que fiz, fui processado e devolvi o valor. Só hoje vejo que o que mais doeu foi ver no rosto das pessoas a decepção delas ao terem confiado em mim”, continuou o administrador.

 

Após a demissão do trabalho, C.M. entrou em um novo ciclo de mentiras, desta vez dentro de casa. Além das pequenas mentiras que permeavam seu cotidiano, ele conseguiu esconder sua condição de desempregado por quase cinco meses.

 

“Passei a sair de casa todos os dias como se eu estivesse indo trabalhar, para que a minha família não soubesse o que tinha acontecido. Eu ficava o dia inteiro vagando pela cidade, sentado em praças e matando o meu tempo. De noite eu voltava e ainda relatava detalhadamente como havia sido meu dia no escritório, chegava a ser doentio”, lamentou. 

 

Diagnosticado como mitômano, C.M. passou por um longo tratamento psicológico para voltar à realidade. Hoje trabalha em um escritório de publicidade, livre de mentiras que mais pareciam ilusões. 

 

“A verdade liberta. O mitômano fica preso dentro das suas mentiras. A família é uma das únicas capazes de demonstrar que confia nele e o instigar a voltar à vida real, sendo mais uma vez uma pessoa verdadeira”, encerrou Ricardo Monezi.

 

 

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