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Atualizado em segunda-feira, 21 de novembro de 2011 - 18h20

Transplante multivisceral salva brasileiro

Renato Consonni teve que se tratar nos Estados Unidos; tecnologia brasileira ainda não permite transplante de intestino
Renato, após o transplante, faz sua primeira refeição tipicamente norte-americana no hospital: pizza e bolo de chocolate / Arquivo Pessoal Renato, após o transplante, faz sua primeira refeição tipicamente norte-americana no hospital: pizza e bolo de chocolate Arquivo Pessoal

Durante uma viagem de carnaval com os amigos, Renato Consonni, então com 26 anos, iniciou uma verdadeira batalha pela vida. Cerca de um ano antes, em março de 2007, ele descobriu um tumor nas costas, de 16 centímetros. O tumor fora causado por uma doença chamada fibromatose desmóide, que podia causar outros, em diferentes lugares. Mas, na época, ele apenas fez a cirurgia para a retirada do tumor e não teve mais problemas.

No ano seguinte, durante o carnaval no interior de São Paulo, ele começou a sentir mal. Tinha enjoos, vômitos, muitas dores nas costas. “Pensei que era por causa de beber muito, comer mal, coisas que a gente faz no Carnaval”, relembra. Consonni antecipou sua volta à capital e procurou um renomado hospital na zona sul de São Paulo. Por três vezes ele foi diagnosticado com uma infecção intestinal.

Mas em todas elas, tinha muitas dores e não melhorava. Os médicos acabaram realizando diversos exames e constaram: havia um novo tumor, desta vez, no intestino. "Tinha 16 centímetros e estava localizado na raiz do mesentério", relembra o jovem. Para piorar, o médico, sem cerimônias, se adiantou dizendo que "com certeza o tumor era maligno. Mas, eu fui para a biópsia e o resultado do exame comprovou que era benigno", diz.

"Incompatível com a vida"   

Na época, Renato trabalhava como publicitário e teve que interromper o trabalho para tentar descobrir seu tratamento. “Consideraram que era inoperável. Não dava para tirar só o tumor, no julgamento dos médicos daquele hospital eu teria que tirar a raiz do mesentério, que é o que irriga o intestino. E nas palavras deles, isso era ‘incompatível com a vida’”.

Consonni foi operado pela segunda vez. Na mesa de cirurgia, os profissionais olharam e não sabiam o que fazer, pois o caso era raro. Não havia descrição na literatura médica. Eles voltaram a fechá-lo, levaram-no para um quarto – e não para a UTI – retiraram os drenos. Tudo isso, causou ao publicitário uma grave infecção.

"Nessa época eu perdi muito peso. Sempre fui magro, pesava 73 kg com 1,85m. Eu cheguei aos 57 kg. Também estava sob efeito de muito medicamento, ficava muito tempo inconsciente e muito do que passei, meus irmãos e meus pais me contaram", explica. A infecção era tão forte que os médicos tiveram que levar publicitário a uma nova cirurgia. O único pedido da família foi que o médico que mandou tirar os drenos, não o tocasse. Tiraram parte do pus que resultava da infecção – "dois copos", conta.

Renascimento

Mas como o corpo estava muito fraco, ele foi induzido ao coma, "para que o corpo guardasse energias para lutar contra a infecção". Depois de três dias desacordado, os médicos disseram à família que se ele não acordasse, a infecção tomaria parte de seu corpo e poderia matá-lo. 

Daí veio o primeiro renascimento, como ele mesmo diz, relembrando as coincidências de seu nome. “Renato significa renascimento e Consonni – na palavra italiana – significa com sonhos”. Era dia 6 de março, a data de seu aniversário. Passado o susto, os pais do publicitário começaram então uma busca incansável por novos diagnósticos. Tentaram tratamentos com diversos medicamentos e até quimioterapia. Um dos remédios custava mais de R$ 8 mil a caixa.

Crises 


Apesar do esforço de todos da família, nenhum tratamento provocava o efeito desejado. "Em outubro daquele ano comecei a passar muito mal. Tive bacteremia – presença de bactérias na corrente sanguínea que provoca fortes tremores que só são controlados com auxilio de medicamentos – e meus pais tiveram que sentar no meu tórax e pernas para eu parar de tremer. Fui também controlando meu corpo, tentando parar e conseguimos chegar ao hospital", relata.

Consonni foi indicado para outra cirurgia. Quando os médicos abriram viram que o tumor tinha necrosado e "enforcado" uma parte do intestino. Retiraram 90 centímetros do órgão do publicitário. "Três daquelas réguas de 30 cm", exemplifica.

Ele teve que se adaptar a viver sem parte do intestino, ter uma alimentação que era facilmente absolvida pelo organismo para conter as diarreias frequentes. Colsonni e a namorada chegaram a comemorar um ano sem cirurgias. Mas o publicitário teve mais uma recaída, com mais infecção e bacteremia.

Retirada do intestino


Depois de longas conversas entre o hospital e a família, para explicar os riscos do procedimento, Renato foi operado e dessa vez retiraram todo o intestino, parte do estômago e pâncreas. A partir daí mais uma longa internação, uma fase de adaptação, com ajuda de enfermeiros 24 horas por dia, morfina na veia para tirar as dores e uma empresa de home care, indicada pelo hospital, "que parecia que fazia de tudo para prolongar o tratamento".  Mas, a mãe de Colsonni, dedicada, em pouco tempo aprendeu a cuidar do filho e "virou uma enfermeira".

Sete meses depois, o publicitário recebeu uma notícia que mudaria seu destino: um médico brasileiro, que vive nos Estados Unidos e é referência mundial, poderia fazer um transplante muitivisceral e devolver a ele sua vida normal.

“Do hospital eu mandei e-mail para o Dr. Rodrigo Vianna e ele foi super atencioso, disse eu tinha chances de ir ao transplante. Em um mês eu estava nos Estados Unidos”, relembra. Era 2 de setembro de 2010. Depois de uma série de exames, “no dia 10 de outubro entrei oficialmente para a lista de espera”, conta animado. No dia 16 de outubro, ele foi submetido ao transplante multivisceral e recebeu de uma só vez, estômago, intestino delgado, pâncreas, fígado e duodeno. O baço foi retirado e ele continuou sem o intestino grosso, que não se transplanta.

Vitória

Hoje, mais de um ano depois, ele continua tomando medicamentos para evitar rejeição. Retomou sua vida social. Continua se cuidando, teve alguns problemas, mas que não foram difíceis de tratar aqui mesmo no Brasil. E sabe que nasceu de novo. “Estou muito bem, sempre me comparo não com a minha saúde antes da doença, mas no começo dela, quando não podia comer nada. Hoje tomo um remedinho, mas já cheguei a tomar 48”.

Consonni voltou a trabalhar, não com o ritmo corrido da publicidade. É captador de recursos para a ONG Habitat para a Humanidade e conta toda sua história em seu blog. O jovem retomou sua vida social e, aos 30 anos, tem certeza que está sempre rodeado da família, namorada e muitos amigos.